A memória é um ímã que coloca em contato passado e presente. Assim que se mudaram para a África, meus pais resolveram que cada filho adotaria um animal característico da região. Não animais reais, claro, mas miniaturas, pequenas esculturas, fotografias artísticas ou qualquer outra representação bonita. Acho que eles queriam que, de alguma forma, a nossa infância nunca escapasse da nossa história e fosse sempre lembrada de um jeito criativo: uma fórmula mágica para matar a saudade e continuar vivendo. Desde então, minhas três irmãs e eu, no meio das incontáveis mudanças de ruas, casas, bairros, cidades, países e continentes, sempre nos mantivemos vizinhos às nossas raízes.
Meus pais acertaram na mosca!
Sarah ficou com os elefantes e até hoje preserva em si uma doçura proporcional à grandeza deles, além de uma memória invejável. Maïra escolheu os hipopótamos e, sem dúvida, é a que tem os hábitos alimentares mais saudáveis da família. Se ela pudesse, só comeria folhas. Inclusive é capaz de ficar submersa por horas e horas e aparecer do nada para mostrar toda sua força. Nara abraçou os camelos, e a sua corcova imaginária funciona como um reservatório para guardar toda a sua bondade. A mim me foi dada a girafa, e até hoje sinto que trafego pelo mundo com a cabeça grudada nas nuvens e as patas fincadas no chão. Sempre achei que girafas fossem poetas gigantes que observam o mundo, manchadas pela tinta de suas canetas.



